terça-feira, 23 de outubro de 2007

Empecilhos (um diálogo verídico)


LÍLIAN: Daqui a pouco esta será a sua relação mais duradoura, Jorge.

JORGE: Daqui a um ano vamos comemorar, Lila, estaremos um ano juntos.

LÍLIAN: É mesmo.

JORGE: Mas nosso relacionamento tem problemas, porque não fazemos sexo.

LÍLIAN: Jorge, só pra constar: nós não somos namorados.

JORGE: Ah.

PAUSA

JORGE: Quer namorar comigo?

LÍLIAN: Jorge.

JORGE: Que foi.

LÍLIAN: Eu sou lésbica.

JORGE: É mesmo. Não dou sorte no amor.

Sobre a utilidade das coisas


Vinicius: Olha, um pregador que é ímã de geladeira! Que coisa mais... (qual adjetivo usar?) Útil! Não! Eclética. Isso não é nada útil.


Almiro: É sim, você põe aqui na porta e ainda pode pregar coisas na geladeira.


Vinicius: Olha, que coisa útil!

Emaranhados


VINI
Ai amiga, eu precisava mandar uma mensagem pra alguém e não lembro pra quem...

TÁI
Que mensagem, amigo...

VINI
É isso, amiga, eu não lembro pra quem! Toda vez que eu lembro e vou escrever, eu esqueço...

TÁI
Então, amigo, faz o seguinte: quando você lembrar, você fala em voz alta...

VINI
Tá certo, amiga... Agora... você me ouça, viu? E me entenda. Porque se você perguntar "o quê", já foi.

TÁI
Tá certo.

VINI
Ai amiga, lembrei, eu preciso mandar uma mensagem pro meu irmão!

TÁI
O quê?

VINI
O que o quê?


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I-Ching do Dia


"Entre o porre e a porra, prefira a mesopotâmia. No meio dos mares, você equlibra suas energias e absorve melhor o pê que seu umbigo é capaz de abrigar. Respire fundo, pois os íons são seus. É você quem escolhe aqueles que mais te servem."

Meu primeiro porre



SÃO PAULO, 6 DE MAIO DE 2007.


Eu sou impaciente para escrever e-mail, carta (esta ultima modalidade de comunicação a longa distância, admiro bastante aqueles que ainda a cultivam) e essas linhas só poderiam sair quando eu passasse por um momento especial.

Esta noite eu vomitei. No meio da rua. Bom, na verdade foi na calçada. Na rua Vieira de Carvalho. Uma rua que leva meu sobrenome. E ficou suja por causa do liquido avermelhado que saiu da minha boca. Ainda bem que era só vinho.

Meu Deus!!! Agora me dei conta que Almiro me viu vomitar. Ah, foda-se. Já foi.

Ele estava sentado do meu lado, me aparando porque eu estava muito mais tonto do que ele. Dois bêbados pateticamente largados na calçada da Vieira de Carvalho, onde há pouco Cauby Peixoto havia cantado pérolas como "Conceição" e "New York, New York", juntamente com fans e curiosos (sou deste time, por favor). Eu ainda não tinha posto um gole de álcool na garganta, apenas uma garrafa de Guaraná Power, como bom rapaz da geração saúde.

São gentis os bombeiros de São Paulo. Um deles me deu água com açúcar. Na calçada, um minuto antes da devolução vinícola.

Isso numa noite de virada cultural. 24 horas de música, teatro, dança, cinema e artes plásticas por toda cidade de São Paulo. Muita gente na rua, lembrava Carnaval de Salvador. "Ê saudade, que bate no meu coração..."

Raves nas ruas Direita e XV de Novembro. Nesta ultima estava melhor, tinha uma dj dentro de uma bolha. Na rua Direita estava cheio demais e o psy trance estava meio devagar. Dançava com a garrafa de São Jorge vazia, pois achava meio absurdo jogar algo daquele tamanho no chão. Só me livrei da dita cuja quando saímos para voltarmos a Praça da Republica, jogando-a corretamente dentro de uma lixeira.

Tiroteio na Praça da Se, onde estava acontecendo o show dos Racionais MC. Foi uma correria, um clima de pânico, medo de levar uma balada perdida. Deve ter sido assim, não sei, porque enquanto isso eu e Almiro já estávamos tranquilamente dormindo. Juntos. Na grama. Na praça ao lado, a da República. Depois da segunda garrafa de vinho. Almiro conta que uns gays passaram pela gente e disseram "ooooohhh..", crentes que éramos um casalzinho feliz deitado eternamente em berço esplêndido. Ele levantou a cabeça na hora pra responder-lhes algo, mas uma mão o impediu. Era a minha, que interpretou sua levantada de cabeça como um afastamento desnecessário, puxando-a de volta à grama, junto do meu ombro. Que coisa fofa.

Andréa Elia nunca iria imaginar que aqueles dois rapazes que fizeram companhia a ela do Sesc Consolação até a Praça da República, iriam terminar a noite assim: trôpegos que tiveram de desistir do Pato Fu às 10 da manhã para chegarem em casa às 6 e terem um sono digno para assistirem a uma Zélia Duncan que eles tb não tiveram saco de ir ver...

Na noite anterior, já tínhamos passado por uma odisséia. A Odisséia de Cinema, do Espaço Unibanco na Rua Augusta (lembro quando jogava Banco Imobiliário e investia na Rua Augusta). Por apenas 8 reais, podíamos assistir a 3 filmes (0h, 2h e 4h), beber uma Bavária Premium (achei horrível), dançar ao som dos djs nos intervalos, beber Jhonie Walker Red Label à vontade batido com morango (com maracujá era foda, eu já estava com lutando contra o sono, não ia beber roska de maracujá) e ainda levar os copos vermelhos para casa. Levamos quatro, dois enfiados no casaco de Almiro. Que eu estava vestindo.

Assistimos "Além do Desejo" , a história de uma mulher que se apaixona por um transexual (muito bom!). Depois veio o "Filme-Supresa": em duas salas, as 2h, passariam filmes que o publico iria assistir sem saber qual é. Na minha passou um filme nacional horrível, "Baixios" não sei que lá, que só serviu para ver que Caio Blat tem pinto grande e Matheus Nachtergaele não, apesar dele insistir em comer o cu das putas gritando "TRAZ A MANTEIGA!". Enfim, um filme pesado e gorduroso. Ainda bem que saímos no meio do filme. Aproveitamos o saguão vazio para bebermos roskas à vontade.

Peraê. Vinicius não bebe. Foi mal, gente. Estou perdendo a minha credibilidade. Mas ainda me considero um homem que não bebe. Só bebi anteontem, ontem e hoje, por exemplo, só vou beber pq eu e Miro preparamos uma batida de Smirnoff com kiwi, uva e leite condensado que está imperdível. Faço questão de salientar que foi ele quem comprou a vodka. E amanhã é segunda-feira, ta tudo certo.

Sim, voltando, recomendo tb o terceiro filme que vimos: o australiano "Olhe para os dois lados", lindo, engraçado e sensível. Super me identifiquei com as loucuras imaginadas pelos protagonistas.

Gente, estou apaixonado. São Paulo é apaixonante. Tem gente que não gosta, que acha feia. Bom, eu gosto. Acho linda.

Meu pavio está acabando. Vou encerrar o e-mail por aqui. Preciso trabalhar agora, pra vcs não pensarem que minha vida aqui vive na base do porre. Foi um só, o primeiro da minha vida. Um porre simbólico, porque muito maior é esse porre de São Paulo, esse porre de vida que estou tomando diariamente. Tenho vivido em embriaguez contínua, vivendo em estado de porre, pronto pra levar porrada, mandar pra porra o que tiver de mandar, porque aqui está muito porreta.

Raíssa vai à praia


Pessoas da rua respondem à pergunta “Por que você não está na praia agora?”.


Corta para

CLOSE UP – Raíssa ao celular.

RAÍSSA
Por quê? Ô, eu tô com muita cólica, Dona Edith. Tá doendo demais!

ABRE A CENA – Raíssa põe o chapéu. Está pronta para ir à praia.

RAÍSSA
Mas de tarde já tô melhor e passo aí pra deixar as roupas que a senhora encomendou. (Olha em cima da geladeira) Cadê essa chave, gente? (debaixo da cama) O vestido dos quinze anos? (dentro da privada) Lógico! São Longuinho, São Longuinho se eu achar essa chave, dou três pulinhos! Combina com azul sim! Achei! (dando pulinhos) O remédio da cólica, achei, é, graças a Deus. Então três horas tô aí, viu? Uma e meia??? Não dá, dona Edith, tenho uma cliente em Brotas, que Brotas!?, é láááá no Saboeiro, quase Mussurunga. Três horas, meu amor, um beijo, ai que dor, tchau.(Desliga) Aleluia, lá vou eu!

Corta para

Ônibus chega no ponto.
Raíssa sentando no banco do ônibus.
Raíssa passando protetor solar nos braços e no rosto.
Pessoas levantando e saindo.

RAÍSSA (cantando e passando protetor)
“Tomar um banho de sol, banho de sol...” Por que tá todo mundo saindo? Como assim, quebrou o ônibus? Alô? Dona Célia? Esperar outro da empresa? Tudo bem, meu amor!? Deeus me livre, moço, é mais fácil chegar dezembro do que, só um minuto, dona Célia, é mais fácil chegar dezembro do que chegar outro busu, ta doido? È Alto do Coqueirinho ali? Ave Maria, dá licença!

Raíssa na rua, ainda ao celular.

RAÍSSA
Dona Célia, a coleção nova já chegou, largue de agonia! Ô moça, meu rosto tá branco?

Corta para Raíssa no outro ônibus, passando pela roleta.

RAÍSSA
Saia jeans também. Não tem troco? É, no joelho, isso. O senhor não tem troco pra dez reais??? Pantalona? Que coisa ultrapassada, dona Célia. Espero, né, fazer o quê? Tem uma blusinha que sua filha vai amar Aaai!!! Foi o ônibus aqui, menina, quase caio, Ave Maria, moço, pede pra esse motorista dirigir direito. (Sentando) No fim da tarde tô passando aí. Até mais. Ó meu troco, viu moço? Alô? Dona Kiko? Pode deixar, daqui a duas horas estou aí. Que caminho esse ônibus faz, moço? O quê??? Não vai dar, dona Kiko. Ah-ah, é porque, é porque eu...

PESSOAS DA RUA DÃO SOLUÇÕES.

RAÍSSA
Isso não. Isso também não. É pra ela acreditar, né gente?

PESSOA DIZ: “Vai levar o filho no médico”

RAÍSSA(Ao celular)
Pois é, meu amor, vou le... Eu não tenho filho gente, que que é isso??? É o filho da minha vizinha, bateu aqui na porta com... com... com...

TRÊS PESSOAS DIZEM CADA UMA:
01. FEBRE
02. SARAMPO
03. DENGUE

RAÍSSA
Febre, sarampo e dengue. É, tudo junto, horrível, coitado, ai. Amanhã passo aí, tá? (Desliga) Vocês têm cada idéia, Ave Maria! Ô moço, olha quanta gente já subiu, cadê meu troco?

Raíssa passando entre as pessoas.

RAÍSSA
Com licença, gente, meu ponto, meu ponto.

Raíssa puxa a cordinha.
Ônibus freia bruscamente.
Raíssa projeta-se para frente.
Som de coisas caindo nos balõezinhos (Pow! Puf! Splash!)
Raíssa catando as coisas no chão.

RAÍSSA
O apresuntado, gente!!! Cadê a outra banda do pão? Meu réfri, me dê, menino! Meu ponto, gente! Pera aí, motô, peraí, motô!!!

Corta para

RAÍSSA desce do ônibus.

RAÍSSA
Ai, Jesus! Eu ainda vou ter que ir andando até a Sereia pra pegar van pra Aleluia, gente.

A sandália de Raíssa parte.

RAÍSSA
Ai, né possível! Ô miséria, ô (Aparece balãozinho de xingamentos) de sandália!!! Vou largar você aí, viu!

Corta para

Pés de Raíssa andando com dificuldade. Close up.

RAÍSSA
Ai, esse chão tá pelando, gente, ai!

Raíssa tropeça num buraco.

RAÍSSA
Uai! Que calçada é essa, Ave Maria!

Celular toca.

RAÍSSA
Alô? Oi, dona Edith! Três horas, já??? Tá passando van pra Praia do Flamengo? É que atrasou... que praia, oxente, praia!?!? Tô indo ver uma cliente lá em Praia do Flamengo, dona Edith, calma, que de lá pra Amaralina é um pulo, largue de agonia! Minha canga, menino, tome cuidado! Ói, Dona Edith,me deixe, viu, que eu não sou vagabunda pra tá na praia quarta-feira de tarde. Meu Deus, a van , gente!!!

Raíssa corre.
Aparece balãozinho: “LOTOU, LOTOU! ARRASTAAA!!!”

RAÍSSA (parada, frustrada)
Ah, não, gente, chega. Vou ficar aqui em Itapuã. Que nada! (Feliz) Ave Maria, vou tomar meu banho de mar, Jesus, ai, não acredito!

IDÉIAS DAS PESSOAS QUE SE REALIZAM:

Podiam roubar a bolsa dela..

RAÍSSA
Ei!

A praia podia estar lotada.

RAÍSSA
Quarta-feira, gente? No meio do ano???

Podia chover.

RAÍSSA
Ah, nãããõ... Brigada.


FIM